quinta-feira, maio 08, 2008

Mais um capitulo da criminosa destruição da “Siderurgia Nacional”


Contra a destruição da Lusosider
Não pode ser entreposto

Os trabalhadores e o Sindicato dos Metalúrgicos não aceitam que a multinacional brasileira CSN continue a transformar a Lusosider num armazém, para introduzir os seus produtos nos mercados de Portugal e da Europa.

Dos quatro produtos que até há alguns meses fabricava, a Lusosider (fábrica de aços planos, que resultou do desmembramento e privatização da Siderurgia Nacional, em Paio Pires, concelho do Seixal) anunciou que vai eliminar três. Abandonada a produção de folha-de-flandres, de chapa laminada a frio e de chapa decapada e oleada, fica apenas a chapa galvanizada.

Das dez linhas de produção
que funcionavam em 2007, apenas três estão em funcionamento (uma foi desmantelada no fim do ano e seis estão paradas).


Aos cem postos de trabalho que liquidou no final do ano passado (provocando o despedimento de outros tantos subcontratados da Multilabor, aos quais não foram pagos os direitos legais) e às duas dezenas de contratados a prazo que ficaram sem renovação desde o início do ano, a empresa junta agora mais 53 trabalhadores, cuja saída tem concretizado paulatinamente nas últimas semanas.

Na semana passada, Carlos Fernandes e Fernando Dias ficaram a saber que estão também entre os que têm o despedimento anunciado. São dirigentes sindicais e ambos resistiram a todas as pressões da administração e das chefias (incluindo um «prémio» de dois mil euros) e recusaram a adesão individual a um novo «acordo de empresa» que retirava importantes direitos aos trabalhadores. Não calaram, protestaram, organizaram, sofreram processos disciplinares, viram ser despedidos um delegado sindical e um membro da comissão de trabalhadores.

«Mantiveram-se firmes e convictos da sua razão, defendendo que não era a alteração das relações laborais que salvaria o futuro da empresa», diz Américo Flor. O coordenador do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul, da CGTP-IN, salienta que «esta resistência foi entendida» pelos trabalhadores «e a sindicalização até aumentou».


Se a Lusosider pretendia implantar «sem empecilhos» a estratégia montada desde que, há dois anos, a Companhia Siderúrgica Nacional, sediada no Rio de Janeiro, adquiriu a totalidade do capital social, não é com estes despedimentos que o vai conseguir. Américo Flor assegura que «já há trabalhadores disponíveis para candidatos a delegados e dirigentes» do sindicato e que os operários «não vão baixar os braços» perante as ameaças futuras.

Lucros e outras contas

A denúncia da estratégia da multinacional - que Carlos Fernandes identifica como única produtora de folha-de-flandres no Brasil e uma das cinco maiores a nível mundial, com um crescimento de lucros de 150 por cento no último ano - sobressai, nas palavras dos dois dirigentes despedidos, como principal preocupação. Acusam a CSN de não estar a realizar uma reestruturação, mas sim a destruir a produção nacional e a reduzir o pessoal, para fazer da Lusosider um mero entreposto comercial.


Esta acusação foi já feita em reuniões do sindicato com o Governo, a última das quais teve lugar a 17 de Abril, quando uma delegação se dirigiu ao Ministério da Economia. «Ficaram de procurar mais informações e depois dariam resposta, mas até hoje não veio nada», conta Fernando Dias. «É assim que o Governo defende a produção nacional e os postos de trabalho» - protesta Carlos Fernandes.


A acusação era grave e também foi feita publicamente pelo sindicato. Desactivar linhas de produção visa «criar espaço para armazenar chapa vinda do Brasil, para, no local, ser trocada a etiqueta da CNS pela etiqueta Lusosider e, depois, ser vendida no mercado nacional e europeu como produto Lusosider» - referia-se, mais recentemente, numa nota de imprensa emitida na véspera da deslocação ao Ministério de Manuel Pinho. Mas este alerta já fora feito antes, logo após os cem despedimentos do final de 2007.

Tanto a administração como o Governo, mostraram-se incomodados por ser feito o reparo de que os despedimentos e a desactivação de linhas de produção ocorrem quando está praticamente concluída a ligação ferroviária entre as instalações siderúrgicas de Paio Pires e o nó de Coina. Este investimento público, da Refer, teve o seu concurso internacional anunciado poucos dias depois da CSN comprar, por 25 milhões de euros, os 50 por cento do capital da Lusosider que ainda pertenciam à Corus Group. Os 4,5 quilómetros do troço que vai ligar a siderurgia à rede ferroviária tinham um custo estimado de 15 milhões de euros.

O sindicato e os dirigentes contestam ainda os alegados prejuízos, que servem à Lusosider para justificar a sua «reestruturação». Apresentam outro lado das contas: dos custos da Lusosider, 80 por cento têm a ver com a matéria-prima, a qual é comprada à CSN, que é a dona da Lusosider e que, ao fim de três anos de deter metade do capital, até decidiu ficar com a totalidade.

A realidade é hoje muito diferente das perspectivas traçadas quando o objectivo da multinacional era obter o ramal ferroviário e incentivos fiscais. Então, recordam os nossos entrevistados, as 550 mil toneladas de capacidade anual de produção instalada iriam chegar a um milhão e, num segundo projecto, com a construção de uma laminadora a quente, até falaram em três milhões de toneladas. A Lusosider tornar-se-ia a segunda maior exportadora do País, logo a seguir à Autoeuropa, e permitiria até a criação de 1350 postos de trabalho. Os projectos não passaram disso mesmo, enquanto a força de trabalho está hoje reduzida ao mínimo, com situações de sobrecarga, que aumentam os riscos de acidentes, e com o autêntico roubo praticado contra os trabalhadores que são subcontratados através da Multilabor, a quem não são pagos direitos importantes (como no caso de trabalho suplementar).

Estas são também contas das lutas futuras, num futuro que pode estar bem próximo, assegura o sindicato.

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